O paciente Pedro chega e diz que sente crises de ansiedade e pânico
em meio a aglomerações, sente formigamento nas mãos e às vezes até pensa
que irá morrer. Sente-se constantemente sufocado. Não tem mais
paciência com a família e só quer dormir e ficar em casa. Por esse
pequeno quadro de sintomas é possível já inferir que o paciente passa
por uma crise de ansiedade leve. A psicoterapia seria uma indicação
adequada para o tratamento dos sintomas, no entanto Pedro perde 4 horas
do seu dia em ónibus e metros lotados para chegar e voltar do trabalho
em telemarketing, onde trabalha muito, sob muita pressão, recebendo
salário baixo e num cubículo sufocante. Em casa a situação com a família
é tensa, tendo em vista que o pouco dinheiro que recebe não é
suficiente para as contas. Ele tolera essa situação há dois anos.Como pudemos ver, os sintomas falam muito pouco sobre Pedro, assim como falam pouco sobre qualquer paciente. A psicologia não é feita de sintomas, mas sim de pessoas. A própria definição de sintoma dentro da psicologia pode ser um tanto problemática e taxativa. Arrisco-me inclusive a dizer que o diagnostico, em geral, ajuda muito pouco o paciente quando este fica sabendo “qual é a sua doença”. Afirmo isto pois o paciente adere a um rotulo e usa esse sempre que sentir que é necessário e para justificar as mesmas condutas de sempre. Na minha experiência com dependentes químicos, por exemplo, pude ver de perto que o título de “noia” que um usuário de crack recebe prejudica muito mais do que a própria droga em si. Todos o chamam de “noia” e ele sabe que usar crack é “coisa de noia”, então ele se identifica com o rótulo, a sociedade de uma forma geral reforça a situação de delinquência e o “noia” age de forma correspondente com o papel social que lhe foi dado. A pedra de crack, assim como o sintoma e o diagnostico, são mais “rótulos” de um problema maior do que o problema em si.
No caso de Pedro, como a psicoterapia sozinha seria capaz de dar conta de sintomas que são o reflexo de situações sociais de humilhação cotidiana? Quem, assim como eu, usa transporte público, sabe que nos horários de pico a sensação de sufocamento é absolutamente inevitável e natural frente uma situação absolutamente humilhante e de descaso do Estado em relação ao transporte público. São Paulo é, atualmente, considerada a cidade com mais casos de transtornos mentais do mundo, devido principalmente a desigualdade social e a urbanização exacerbada. Portanto, tratar em psicoterapia visando apenas à redução dos sintomas de Pedro é uma pratica absolutamente desumana e que visa a apenas a adequação das pessoas para se tornarem mão de obra dócil. Dizer que “o problema não é o trem que está lotado demais e o trabalho humilhante, o problema está dentro de você que se sente humilhado” é um bom exemplo de psicologisação: termo usado quando um problema real e objetivo é tratado de forma excessivamente subjetiva e psicológica, de forma que o problema nunca está fora, no mundo, mas sempre está dentro do sujeito que sofre.
Isso não significa que a psicologia clínica não possa fazer nada em relação às angustias como as de Pedro, por exemplo. Mas a via da vitimização e da aceitação cega das adversidades apenas maquiará o problema. O importante é justamente trabalhar o protagonismo e a possibilidade de se colocar de forma autônoma frente às diversidades, mesmo que a escolha seja não fazer nada a respeito. É importante que Pedro entenda que sua vida atual não é uma fatalidade, mas sim algo que pode ser transformada por ele e pelas pessoas que vivem situações semelhantes à dele. Nesse sentido a psicologia, assim como todo o campo da saúde, é um campo político e que exige posicionamento ético em relação à vida humana.
Leia também a matéria da Folha: Cultura da avaliação pessoal matou senso coletivo de trabalho
(Publicado originalmente em http://andrewsoares.com.br/tratar-sintomas-ou-pessoas/ )