“No decorrer do aprendizado de um indivíduo, a tendência, é que este enalteça suas habilidades a fim de se tornar cada vez melhor naquilo que se propõe a realizar. Uma das possíveis consequências, é a negligência sobre as áreas que menos o favorecem, tornando-as, por conseguinte, seus pontos fracos.” (Estado Coach – A ótica do enxadrista – Santiago Gomes)
Inatismo
Imagine-se em uma casa de campo junto a uma plantação a se perder de vista. Imagine que essa terra é sua e que depende daquilo que você planta para sobreviver. Qual a semente que plantou? Como você cuida da terra? Como gerencia e estabelece valor em seus produtos? Agora imagine que você é a terra e a plantação faz alusão às suas habilidades, experiências, virtudes… Abstraia-se um pouco de si e parta para o ponto de vista do outro, colocando-se na forma de “ambiente” para poder compreender sobre a importância que os mesmos possuem como base para a nutrição psíquica tal qual para desenvolvimento do potencial de si mesmo assim como para o de outros indivíduos.
Todos nós possuímos uma alimentação básica a qual faz parte da nossa subsistência. Vamos usar o arroz e feijão como exemplo: Em sua vida, quem representaria o arroz e o feijão? Precisa de proteína? Oquei… Quem seria o criador de gado? Quem representaria o morango, a verdura, o abacate…? Será que, por mais que goste muito de maçã, poderia viver apenas de maçã? Colocando em voga suas relações mais próximas ou íntimas: Será que elas constituem uma alimentação básica e nutritiva para seu desenvolvimento psíquico assim como social? Será que essas relações proveem o necessário para o desenvolvimento máximo dos seus potenciais? Quando abre mão de amigos ou de um parceiro(a), do que realmente está abrindo mão?
Hoje compreendo que a condição necessária para que um ser humano se revele da forma como conhecemos e estamos acostumados (o homem social moderno), carece de condições necessárias para chegar a esse ponto comum, haja vista que, se colocarmos um filhote de cachorro para crescer e se desenvolver no meio da selva, anos depois, se o encontrarmos, claramente poderemos obter grande parte de informações garantindo que o cão continua a ser um cão. Por fim, se colocarmos uma criança para crescer e se desenvolver, sem contatos humanos, na mesma selva, anos depois, poderemos também reconhecer o animal humano, mas com poucos ou nenhum traço que nos traga referência do homem que estamos acostumados a lidar.
Estudos feitos com crianças selvagens mostram que, uma vez desenvolvida sem o contato humano, a criança passa a se comportar nada mais do que como um animal selvagem e, muito raramente, ainda que inserida no ambiente social, denotará transformação em seus comportamentos. Partindo desse ponto: O que nos conduziu a esse escopo o qual denominamos “ser humano”? Somos a soma das experiências que vivemos, onde a maior habilidade se revela no ato de imitar (Isso explica porque a “moda” exerce tanta influencia sobre as sociedades em geral). Partindo desse ponto, sobre o ponto de vista de um indivíduo em específico, com base nos seus valores morais provenientes do ambiente em que se desenvolveu (religioso, cultural e social), o nivelamento do que é certo ou errado, se limita às experiências adquiridas através das idades e da unicidade da sua existência e relação com seu meio.
O que posso atestar, utilizando o repertório de conhecimento adquirido, é que o homem tem um grande potencial para ser desenvolvido (potencial inato) e que o ambiente é extremamente necessário para que ocorra tal fenômeno. Isso me leva à reflexão sobre: Será que o ambiente o qual vivo, explora de mim o melhor que posso ser? Levando isso para as relações humanas (usando a proposição do segundo parágrafo): Sou um terreno fértil para qual tipo de plantação? Perceba que, em se tratando dessas duas perguntas, na primeira, proponho-me pensar sobre o ambiente incluindo no mesmo, as pessoas que me rodeiam… De que forma, por exemplo, desenvolveria meu potencial como músico, se vivesse no sertão nordestino? Claro que poderia desenvolver, mas, a escassez de recursos do lugar, com certeza influenciariam, em algum nível, sobre o tempo que levaria para atingir o limite do meu potencial.
Se colocarmos uma criança com habilidades musicais em um ambiente propício, as chances que se desenvolva são abismais em relação à mesma criança se colocada em um ambiente abstraído de música. Portanto essa criança é uma artista nata (percebe e reconhece a música), mas a habilidade de ser uma cantora ou instrumentista é inata, pois carece de um ambiente para que se revele. Imagino um pedaço de madeira em brasa: Se o colocar em um ambiente úmido, possivelmente se apagará, ao passo que, se o colocar em um ambiente seco e assopra-lo, certamente revelará o fogo latente.
Observe que a própria relação com o outro passa a ser uma relação com o ambiente que o outro é, ou seja, para o outro, sou um ambiente que o incita e revela algo nele próprio. Partindo desse princípio, coloco-me a pensar na importância do ambiente que sou para o desenvolvimento do potencial do outro. Somos “ato” e “potência”, “essência” e “substância”. Compreendo que, ao passo que um ambiente se esgota, como a terra em que plantamos, é natural e necessário que migremos de ambiente para continuarmos a jornada do desenvolvimento de nossos potenciais. Por isso, no decorrer das idades, é comum observar quantas foram as relações que se findaram, quantas mantivemos e porque mantivemos, assim como as que se esgotaram sem esquecer da importância e o proveito que tiramos delas.
Certa vez conheci um homem que trabalhava como professor em academias e tocava aos finais de semana com sua banda. De sorte, seu sustento provinha de suas aulas enquanto a música era apenas um hobby, mas, como qualquer músico, ansiava em viver da sua arte. Em determinado momento conheceu aquela que seria sua esposa, uma pessoa envolvida com música (produtora musical) onde a maior parte dos seus amigos eram artistas e viviam de sua arte. Conhecê-la fez com que esse homem se reconhecesse naquele ambiente e desenvolvesse seu potencial inato até que, finalmente, conseguiu viver da sua arte. Perceba que sua mulher junto a tudo o que a circundava (amigos, trabalho etc.), foi um terreno fértil para o seu desenvolvimento que, até então, era uma realidade desconhecida por ele (incompetência inconsciente).
Somos seres naturalmente de passagem e nos transformamos e migramos de ambiente (pessoas), de acordo com a necessidade de nos transformarmos e nos potencializarmos através do desenvolvimento das nossas habilidades. Acalenta-me adquirir consciência ao saber da importância do ambiente para minha transformação. Lanço-me à ideia de ser o melhor possível mesmo diante das adversidades e me manter integro para que também possa ser um ambiente fértil para a transformação de outrem, seja esse, o desenvolvimento proveniente de qualquer configuração de relação com o outro (amigo, pai, amante etc.) e, assim como os campos de centeio poder gerar frutos que servirão para a constituição de vários outros produtos (de base ou não), além de proporcionarem uma linda vista.
Nota: Inatismo é uma doutrina filosófica segundo a qual algumas ideias ou conteúdos mentais estão presentes desde o nascimento, isto é, não são adquiridos ou aprendidos;
O grão de centeio é utilizado para fazer farinha, ração, cerveja, alguns tipos de whisky e grande parte das vodcas, além de ser muito utilizado na produção de pão de centeio. O centeio é plantado, sozinho ou misturado, para forragem do gado ou para ser colhido como feno. É muito tolerante com a acidez do terreno e mais ambientado a condições de seca e frio do que o trigo, embora não seja tão tolerante com o frio quanto a cevada.
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