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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Relato: ´´Convivo com a síndrome do pânico desde os 16 anos´´


A autora mantém um blog para falar sobre síndrome do pânico, Sempre no Presente, e convida os leitores a lhe escreverem para compartilhar experiências.
Convivo com a síndrome do pânico desde os 16 anos. Não o tempo todo, mas tempo demais.
"O Grito" (1893) de Edvard Munch
"O Grito" (1893) de Edvard Munch
Comecou no final do colegial. Estava vendo uma terapeuta e, de repente, me sentia triste e chorava. Foi piorando, piorando até que a minha terapeuta achou que não me ajudava mais e me mandou para um psicoterapeuta.




Durante uma das sessões, lembrei de uma coisa que havia enterrado há muito tempo: aos seis anoos de idade, meu tio tinha abusado sexualmente de mim. Logo depois do surgimento dessa memória, as crises de pânico começaram.
Por três vezes, fui obrigada a dar uma pausa na minha vida para me tratar. Durantes esses períodos, ficava extremamente debilitada. Sentia medo e dores no corpo todo. Não suportava o cheiro de qualquer comida. Só tomava água em pequenos goles. A comida tinha quer ser fria, sem gosto e em pequenas quantidades. Perdia muito peso em pouco tempo e não saía casa. Quando tinha sorte, dormia.
Mas nunca nos primeiros dias. Eram os piores. Começava como se uma luz se acendesse na minha cabeça. Como se tivesse me lembrado de alguma coisa. Parecia que era uma coisa muito importante. Mas não era. Logo em seguida, sentia uma descarga elétrica pelo corpo, vinda do topo da cabeça. E um formigamento. O estômago doía como se tivesse comido algo estragado. E eu ficava apavorada, aterrorizada. Sentia que ia vomitar e isso me deixava ainda pior. Parecia que ia sair do meu corpo. Parecia que o mundo não era mais sólido. Eu olhava para frente e o mundo acabaria em um abismo exatamente no ponto em que eu não pudesse mais enxergar o horizonte. Eu tinha certeza que iria morrer. Ou enlouquecer.
Da última vez em que fiquei assim, foram semanas até que fosse controlado.
"A Criança Doente" (1885) de Edvard Munch
"A Criança Doente" (1885) de Edvard Munch
Tomei tanto remédios que até perdi a conta. Conheço todas as famílias de anti-depressivos, ansiolíticos e anti-psicóticos. Não tenho nada contra remédios. A verdade é que me salvaram. Honestamente, eu acho teria acabado pulando da janela se não conseguisse ter o mínimo de paz. Precisava conseguir respirar. E foram os remédios que fizeram isso por mim quando eu não tinha forças para fazer sozinha.
Tomei por vários anos. Com muitas idas e vindas. Não é fácil encontrar a medicação e a dosagem certa. Os psiquiatras fazem o que podem. Escutam sua história, seus sintomas e tentam ajustar. Mas, depois de tanto tempo, percebi que é uma roleta. O médico nunca sabe exatamente como aquele organismo vai reagir. O que eu tomava não servia para uma amiga que passava pela mesma coisa.
Depois de um ano e uma troca de psiquiatra, um dia eu finalmente consegui me arrumar e ir a um restaurante. E comer. Foi um dos melhores dias da minha vida. Parece uma bobagem, mas eu não vivia como uma pessoa normal há muito tempo. Consegui respirar de novo. Eu nunca apreciei tanto a entrada e saída de ar dos meus pulmões.
Tudo ótimo. Eu estava recuperada. Tive pouquíssimas crises de pânico nessa época, mas mesmo assim não tinha medo. Até o momento que percebi que não tinha medo de nada. Parece ótimo. Não ter medo de nada. Mas para mim era muito estranho. Eu tinha me acostumado a viver com o um certo grau de medo e tinha desenvolvido procedimentos. Não comer demais, não beber, não fazer nada em excesso. Nem muita alegria nem muita tristeza.
Com os remédios, eu nem me lembrava dessas regrinhas. Eu comia de tudo, sem limite nenhum. Comecei a beber. Bebi demais. Foi divertido por um tempo. Mas, com o tempo, comecei a perceber que tinha ficado sem noção, sem controle. Não era capaz de segurar meus desejos. Não conseguia me concentrar. Ler era um sacrifício. Demorava o dobro do tempo para ler uma página. Descobri que estava ficando diabética.
"Cinzas" (1894) de Edvard Munch
"Cinzas" (1894) de Edvard Munch
Honestamente, não sei se foram os remédios propriamente ditos, ou se a liberdade que me davam é que me levou para esse lado. Nem os médicos sabem dizer com certeza. Mas foi quando eu pensei que deveria parar. Tinha que largar aquelas pílulas milagrosas.
No primeiro momento, não fiquei com medo. Quase todo mundo que toma esses remédios quer parar quando se sente bem. E é exatamente quando recaímos. Meu psiquiatra me disse claramente que as crises poderiam voltar dentro de seis a oito semanas. Mas eu estava convencida a parar. Era escolher entre a doença em si ou seus efeitos colaterais dela — que poderiam gerar outras doenças.
Comecei a ler e estudar tudo que havia disponível sobre meditação e curas alternativas. O pânico não mata ninguém de verdade, mas a sensação é que se vai morrer no próximo minuto. Então, para mim, era um big deal. Eu tinha que encontrar um jeito de parar com os remédios e lidar como pânico, caso voltasse. E foi isso que eu fiz.
Meditei e medito todos os dias. Leio sobre o pânico e sobre o que ele faz com o corpo. Tento entender profundamente que a dor é só isso: dor.
Não foi fácil. O pânico voltou no início do ano, mas eu estava determinada a não retomar os remédios. Comecei a fazer um tratamento alternativo para traumas. Esse tratamento me ajuda a entender meu corpo, observar quando o pânico começa, em que parte do corpo, para onde ele vai, como são essas dores. A meditação me ajuda a observar, a não reagir, a me acalmar.
Foram meses de dores, sem comer direito, sem poder nem sentir o cheiro da comida, sem sair de casa. Meses sem conseguir respirar de novo. Eu pensava em desistir, eu pensava, meu deus, porque estou me colocando nessa situação de merda? Eu dormia e era quando tinha paz. Acordava mais forte, com menos vontade de desistir. Mas tive dor de estômago e de barriga esse tempo todo. Era como se tivesse um punho pressionando tudo dentro de mim.
"Morte no Quarto" (1895) de Edvard Munch
"Morte no Quarto" (1895) de Edvard Munch
Há mais ou menos um mês, consegui ir a um restaurante. Não comi nada, mas fiquei num lugar público. Tenho feito isso desde então. Entrei em uns sete restaurantes até agora. Cada dia sinto uma coisa diferente, cada dia uma coisa me surpreende.
A cada dia sai uma das pedras que não deixava o rio correr.
Só percebo porque estou prestando muita atenção. E só consigo prestar atenção quando não fico pensando no que me aconteceu ou em tudo que pode dar errado amanhã. Não é fácil, não existe folga e é deliberado. Preciso conscientemente cuidar da minha mente todos os minutos nos quais estou acordada.
E como era a minha vida antes? Deixava minha cabeça solta por aí, não me preocupava com o que estava pensando ou deixando de pensar. Eu era escravizada pelos meus pensamentos.
Ainda acontece muito. Mas agora eu percebo que acontece. Ainda sinto dores, mas cada vez eu tenho menos medo, menos desespero.
Estou fazendo as pazes com meu corpo, com a minha mente. Tem que ser sempre e só pode ser agora. Momento a momento.
Descreva a sua experiência de superação ou sobre como está lidando com algum problema psicológico, doença, limitação, etc, e envie para nós para ser publicado aqui em nosso blog. Contar a sua experiência pode ajudar você a desabafar e receber apoio de outras pessoas que também estão passando pelo mesmo problema. Envie o seu relato para: psiconlinebrasil@hotmail.com
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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Transtorno do pânico e agorafobia


Cada vez mais pessoas precisam recorrer a um psicólogo para resolver problemas de ansiedade. O transtorno do pânico, com ou sem agorafobia, é um dos problemas mais comuns que os profissionais de saúde mental enfrentam no dia a dia do seu trabalho. No entanto, há muita desinformação e mitos que cercam esta questão. Portanto, este artigo tem por objetivo explicar o que é o transtorno do pânico-agorafobia.




Em primeiro lugar, temos de saber que este problema é tratado como duas entidades diferentes. Isto é, transtorno de pânico, de um lado,  e agorafobia, do outro ( de acordo com os novos critérios do DSM-V). No entanto, a maioria dos profissionais, manuais e livros, os contemplam como sendo o mesmo fenômeno. Por quê? Em geral, para que uma pessoa sofra de agorafobia, é preciso que tenha sofrido de transtorno de pânico antes. Isto é, os problemas surgem quando a pessoa sofre ataques de pânico (distúrbio de pânico) em algumas situações que passam a ser evitadas depois (agorafobia). Por que  ela evita essas situações? Para não ter outro ataque do pânico. 
Para entender melhor o problema, vamos definir o que é transtorno do pânico com ou sem agorafobia. 

Um ataque de pânico é a ocorrência de uma quantidade desproporcional de ansiedade repentina. O que mais assusta estas pessoas é acabar tendo um ataque cardíaco, desmaiar, se afogar, perder o controle ou morrer durante um ataque. Estes pensamentos são acompanhados por sensações fisiológicas como taquicardia, calor, tremores, aperto no peito, tensão muscular e náuseas. 

Estas sensações fazem com que a pessoa não queira outra coisa senão se livrar do desconforto e, para isso, ela pode consultar vários médicos, tomar drogas psicotrópicas, só ir para lugares seguros, procurar ajuda no hospital, etc. Em suma, qualquer comportamento que objetive fazer com que o ataque do pânico desapareça.

Então, o que essas pessoas mais temem é uma sensação física. Ou seja, estão atentos a qualquer sensação que o seu corpo possa ter, como pontadas, tonturas, falta de ar, tensão muscular, etc. Mas, na realidade, a maioria das sensações físicas que eles temem são reações normais e naturais do corpo, como a digestão, menstruação, exercício físico, fadiga, falta de sono, etc.

Agora explicaremos o que é a agorafobia, porque há muita confusão sobre esta problemática. Muitas pessoas acreditam que a agorafobia é o medo de espaços abertos ou públicos, o que é totalmente falso. Na verdade, essas pessoas têm medo de ter um ataque de pânico no momento em que estejam em locais públicos ou em situações das quais não consigam escapar com facilidade. Eles também têm muito medo de ter um ataque de pânico em um lugar onde ninguém possa ajudá-los. Assim, é lógico que, na maioria dos casos de agorafobia, primeiro deve haver um transtorno do pânico. 



Uma vez que eles têm medo de ter um ataque em um lugar onde não consigam escapar, ser socorridos , ou por ser embaraçoso, ao longo do tempo passam a evitar muitas situações, como ir a restaurantes, supermercados, sair, etc. Mas não é só isso, eles também realizam muitos comportamentos de busca de segurança para se sentirem melhores e seguros, como sentar na porta do restaurante, saem acompanhados, vão a lugares próximos de casa, etc. 

Como mencionado, o transtorno do pânico com ou sem agorafobia é um problema comum na prática cotidiana, isso explica a vasta pesquisa que existe sobre o assunto. 

Fonte: Descubrelapsicologia traduzido e adaptado por Psiconlinews