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domingo, 30 de novembro de 2014

Ritalina, droga legal que ameaça o futuro



“Com efeito comparável ao da cocaína, droga é receitada a crianças questionadoras e livres. Podemos abortar projetos de mundo diferentes…

É uma situação comum. A criança dá trabalho, questiona muito, viaja nas suas fantasias, se desliga da realidade. Os pais se incomodam e levam ao médico, um psiquiatra talvez.  Ele não hesita: o diagnóstico é déficit de atenção (ou Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade – TDAH) e indica ritalina para a criança.
O medicamento é uma bomba. Da família das anfetaminas, a ritalina, ou metilfenidato, tem o mesmo mecanismo de qualquer estimulante, inclusive a cocaína, aumentando a concentração de dopamina nas sinapses. A criança “sossega”: pára de viajar, de questionar e tem o comportamento zombie like, como a própria medicina define. Ou seja, vira zumbi — um robozinho sem emoções. É um alívio para os pais, claro, e também para os médicos. Por esse motivo a droga tem sido indicada indiscriminadamente nos consultórios da vida. A ponto de o Brasil ser o segundo país que mais consome ritalina no mundo, só perdendo para os EUA.




A situação é tão grave que inspirou a pediatra Maria Aparecida Affonso Moysés, professora titular do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, a fazer uma declaração bombástica: “A gente corre o risco de fazer um genocídio do futuro”, disse ela em entrevista ao  Portal Unicamp. “Quem está sendo medicado são as crianças questionadoras, que não se submetem facilmente às regras, e aquelas que sonham, têm fantasias, utopias e que ‘viajam’. Com isso, o que está se abortando? São os questionamentos e as utopias. Só vivemos hoje num mundo diferente de mil  anos atrás porque muita gente questionou, sonhou e lutou por um mundo diferente e pelas utopias. Estamos dificultando, senão impedindo, a construção de futuros diferentes e mundos diferentes. E isso é terrível”, diz ela.
O fato, no entanto, é que o uso da ritalina reflete muito mais um problema cultural e social do que médico. A vida contemporânea, que envolve pais e mães num turbilhão de exigências profissionais, sociais e financeiras, não deixa espaço para a livre manifestação das crianças. Elas viram um problema até que cresçam. É preciso colocá-las na escola logo no primeiro ano de vida, preencher seus horários com “atividades”, diminuir ao máximo o tempo ocioso, e compensar de alguma forma a lacuna provocada pela ausência de espaços sociais e públicos. Já não há mais a rua para a criança conviver e exercer sua “criancice.
E se nada disso funcionar, a solução é enfiar ritalina goela abaixo. “Isso não quer dizer que a família seja culpada. É preciso orientá-la a lidar com essa criança. Fala-se muito que, se a criança não for tratada, vai se tornar uma dependente química ou delinquente. Nenhum dado permite dizer isso. Então não tem comprovação de que funciona. Ao contrário: não funciona. E o que está acontecendo é que o diagnóstico de TDAH está sendo feito em uma porcentagem muito grande de crianças, de forma indiscriminada”, diz a médica.
Mas os problemas não param por aí. A ritalina foi retirada do mercado recentemente, num movimento deespeculação comum, normalmente atribuído ao interesse por aumentar o preço da medicação. E como é uma droga química que provoca dependência, as consequências foram dramáticas. “As famílias ficaram muito preocupadas e entraram em pânico, com medo de que os filhos ficassem sem esse fornecimento”, diz a médica. “Se a criança já desenvolveu dependência química, ela pode enfrentar a crise de abstinência. Também pode apresentar surtos de insônia, sonolência, piora na atenção e na cognição, surtos psicóticos, alucinações e correm o risco de cometer até o suicídio. São dados registrados no Food and Drug Administration (FDA)”.
Enquanto isso, a ritalina também entra no mercado dos jovens e das baladas. A medicação inibe o apetite e, portanto, promove emagrecimento. Além disso, oferece o efeito “estou podendo” — ou seja, dá a sensação de raciocínio rápido, capacidade de fazer várias atividades ao mesmo tempo, muito animação e estímulo sexual — ou, pelo menos, a impressão disso. “Não há ressaca ou qualquer efeito no dia seguinte e nem é preciso beber para ficar loucaça”, diz uma usuária da droga nas suas incursões noturnas às baladas de São Paulo. “Eu tomo logo umas duas e saio causando, beijando todo mundo, dançando o tempo todo, curtindo mesmo”, diz ela.
Fonte : clique aqui
Meu Site: www.elizadepaula.com.br

terça-feira, 11 de novembro de 2014

TDAH: consequências da medicalização da infância


Uma vez mais, o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) causa polêmica e divide especialistas. Desta vez, os desencontros estão vinculados à prescrição médica de estimulantes a crianças e adolescentes e à tentativa de controle da mesma por parte da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo.

Com o objetivo de impedir uma prescrição indiscriminada de metilfenidato, comercialmente conhecido como Ritalina ou Concerta, o município publicou uma portaria que limita a receita do medicamento (tarja preta) na rede pública. Quando se trata de crianças e adolescentes, somente poderá ser indicado por especialistas das unidades do Centro de Atenção Psicossocial à Infância (CAPSi). Parte da classe médica classifica a medida de interferência na rotina profissional, mas a decisão começa a encontrar ecos de apoio, principalmente pela gravidade das estatísticas recentes.

Segundo levantamento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a prescrição de metilfenidato a meninos e meninas entre 6 e 16 anos aumentou 75% em apenas três anos. O fármaco é um psicoestimulante, utilizado para tratamento do TDAH, entre outros transtornos. Os dados se referem ao período entre 2009 e 2011, considerando o volume de unidades físicas dispensadas (UFD) em todos os Estados brasileiros.



O consumo do medicamento, de forma óbvia, coincide com um “boom” nos diagnósticos. Este ponto também divide especialistas, já que parte deles acredita numa crescente conscientização acerca do transtorno e outros defendem um excesso na classificação de comportamentos habituais e compreensíveis como TDAH.

As estatísticas assustam no mundo inteiro. Nos Estados Unidos, segundo dados do Centers for Disease Control and Prevention, 11% das crianças entre 4 e 17 anos foram diagnosticados com TDAH, representando 6,4 milhões de meninos e meninas. Ainda conforme a associação, o total de diagnósticos vem aumentando 5% por ano, considerando o período entre 2003 e 3011.

O medicamento não é inofensivo
O uso deliberado do metilfenidato em crianças e adolescentes preocupa especialistas, entre outras coisas, por sua vasta lista de efeitos. De forma prolongada, poderia provocar problemas cardiológicos, afetar o apetite, diminuir a capacidade de socialização desse menino ou menina, além de aumentar os comportamentos obsessivo-compulsivos.

O estudo da Anvisa aponta ainda uma clara relação entre o período escolar e o consumo dos estimulantes, já que há quedas significativas nos meses de férias. É por isso que muitos defendem que o panorama atual revela uma prática socialmente recorrente, em que, muitas vezes, são os próprios pais que buscam a prescrição da Ritalina.

O principal problema estaria no entendimento equivocado dos sintomas, colocando a agitação motora e a falta de atenção como indicativos inexoráveis do TDAH. Alguns especialistas e teóricos afirmam que a hiperatividade na infância está atrelada ao processo de constituição dela mesma, reconhecendo-a como um indivíduo turbulento em sua essência. Ou seja, nem toda agitação ou quadros de falta de atenção deveriam ser vistos como doença.

Mas onde está o limite?
A discussão é profunda, entre aqueles que enxergam o TDAH como um transtorno relacionado a alterações cerebrais, e como tal deve ser tratado e eliminado com o uso de medicamentos estimulantes, e os que o defendem como um problema a ser interpretado e resolvido em suas múltiplas causas.

Isso porque, ainda que o diagnóstico recaia sobre o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, haveria fatores múltiplos afetando as facetas comportamentais dessa criança ou adolescente, demandando diagnóstico e acompanhamento por vários especialistas: psicólogos, psicopedagogos, psicanalistas, educadores e outros , justamente para não enxergá-lo de forma isolada.

O que vem sendo feito e quais serão as posturas no futuro próximo reflete a problemática da saúde na infância e adolescência, com efeitos que afetarão a família, o sistema educativo e a sociedade como um todo.

Fonte: www.mundopsicologos.com