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terça-feira, 11 de novembro de 2014

TDAH: consequências da medicalização da infância


Uma vez mais, o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) causa polêmica e divide especialistas. Desta vez, os desencontros estão vinculados à prescrição médica de estimulantes a crianças e adolescentes e à tentativa de controle da mesma por parte da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo.

Com o objetivo de impedir uma prescrição indiscriminada de metilfenidato, comercialmente conhecido como Ritalina ou Concerta, o município publicou uma portaria que limita a receita do medicamento (tarja preta) na rede pública. Quando se trata de crianças e adolescentes, somente poderá ser indicado por especialistas das unidades do Centro de Atenção Psicossocial à Infância (CAPSi). Parte da classe médica classifica a medida de interferência na rotina profissional, mas a decisão começa a encontrar ecos de apoio, principalmente pela gravidade das estatísticas recentes.

Segundo levantamento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a prescrição de metilfenidato a meninos e meninas entre 6 e 16 anos aumentou 75% em apenas três anos. O fármaco é um psicoestimulante, utilizado para tratamento do TDAH, entre outros transtornos. Os dados se referem ao período entre 2009 e 2011, considerando o volume de unidades físicas dispensadas (UFD) em todos os Estados brasileiros.



O consumo do medicamento, de forma óbvia, coincide com um “boom” nos diagnósticos. Este ponto também divide especialistas, já que parte deles acredita numa crescente conscientização acerca do transtorno e outros defendem um excesso na classificação de comportamentos habituais e compreensíveis como TDAH.

As estatísticas assustam no mundo inteiro. Nos Estados Unidos, segundo dados do Centers for Disease Control and Prevention, 11% das crianças entre 4 e 17 anos foram diagnosticados com TDAH, representando 6,4 milhões de meninos e meninas. Ainda conforme a associação, o total de diagnósticos vem aumentando 5% por ano, considerando o período entre 2003 e 3011.

O medicamento não é inofensivo
O uso deliberado do metilfenidato em crianças e adolescentes preocupa especialistas, entre outras coisas, por sua vasta lista de efeitos. De forma prolongada, poderia provocar problemas cardiológicos, afetar o apetite, diminuir a capacidade de socialização desse menino ou menina, além de aumentar os comportamentos obsessivo-compulsivos.

O estudo da Anvisa aponta ainda uma clara relação entre o período escolar e o consumo dos estimulantes, já que há quedas significativas nos meses de férias. É por isso que muitos defendem que o panorama atual revela uma prática socialmente recorrente, em que, muitas vezes, são os próprios pais que buscam a prescrição da Ritalina.

O principal problema estaria no entendimento equivocado dos sintomas, colocando a agitação motora e a falta de atenção como indicativos inexoráveis do TDAH. Alguns especialistas e teóricos afirmam que a hiperatividade na infância está atrelada ao processo de constituição dela mesma, reconhecendo-a como um indivíduo turbulento em sua essência. Ou seja, nem toda agitação ou quadros de falta de atenção deveriam ser vistos como doença.

Mas onde está o limite?
A discussão é profunda, entre aqueles que enxergam o TDAH como um transtorno relacionado a alterações cerebrais, e como tal deve ser tratado e eliminado com o uso de medicamentos estimulantes, e os que o defendem como um problema a ser interpretado e resolvido em suas múltiplas causas.

Isso porque, ainda que o diagnóstico recaia sobre o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, haveria fatores múltiplos afetando as facetas comportamentais dessa criança ou adolescente, demandando diagnóstico e acompanhamento por vários especialistas: psicólogos, psicopedagogos, psicanalistas, educadores e outros , justamente para não enxergá-lo de forma isolada.

O que vem sendo feito e quais serão as posturas no futuro próximo reflete a problemática da saúde na infância e adolescência, com efeitos que afetarão a família, o sistema educativo e a sociedade como um todo.

Fonte: www.mundopsicologos.com

sábado, 25 de outubro de 2014

TDAH em adultos


Por: Arianna Milhomens, Psiquiatra

Boa tarde, esse texto curto redigido por mim foi baseado em informações científicas e na prática  clínica. Foi feito pensando na população que acessa o facebook, que não tem muito tempo, e precisa de uma leitura fácil, bastante didática e envolvente. Espero poder contribuir para a disseminação do conhecimento e principalmente, para a diminuição do preconceito relacionado aos transtornos mentais. Sou psiquiatra geral, mas logo fiz subespecialização em psiquiatria da infância e da adolescência. Tenho uma pagina no face, viva sem neura Espero que gostem.

TDAH em adultos

O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) era uma doença creditada somente às crianças até o final da década de 80. Ora, essas crianças crescem... e se tornam adultos! Na verdade muitos evoluem com melhora, mas entre 40% e 60% continuam sintomáticos. Os sintomas podem ser grosseiramente divididos em dois grupos:

1- Os que se relacionam com a hiperatividade e impulsividade

A pessoa tem uma inquietação motora e mental, não consegue ficar parada nas situações em que isso é esperado, mexe as pernas, se levanta, anda muito, tem muita energia,” é ligada na tomada”. Já ouvi no consultório que “até meu sono é inquieto, só consigo relaxar quando tomo anestesia”. Exageros à parte, o sono muitas vezes é agitado mesmo. .
A hiperatividade mental se manifesta pelo fluxo contínuo de idéias, sendo que às vezes é difícil acompanhar o raciocínio deles. Começam várias tarefas ou projetos de uma só vez, mas muitas vezes os abandonam no meio do caminho, ou por perder o entusiasmo ou por achar outra coisa mais interessante pra fazer ou por se distrair e acabar esquecendo. Pode se traduzir por um excesso de atividades e/ou trabalho, os chamados workaholics. Além disso, estão sempre em busca de novidades. Por isso não é incomum encontrá-los praticando esportes radicais ou, numa versão “barra pesada”, fazendo uso de drogas.
A impulsividade é traduzida pelo falar ou fazer sem pensar. Claro que pode trazer problemas, como ser considerada uma pessoa sem paciência, que interrompe os outros, não espera a sua vez, e até explosiva, podendo levar a brigas, acidentes no trânsito e problemas com a justiça. Pode tomar decisões importantes sem avaliar as conseqüências e depois... Ficar arrependida.



2- Os que se relacionam com o déficit de atenção

A pessoa vive no mundo da lua, tão distraída que é. Esquece de pegar o filho na escola- várias vezes no ano-, vive perdendo a chave de casa, o celular, os óculos, esquece da consulta médica, do aniversário do pai, de pagar a conta de luz, esquece a bolsa com todos os documentos no caixa do supermercado, esquece até se passou perfume. Numa conversa em grupo, é fácil perder o foco e ficar submersa em seus devaneios... o que pode ser desastroso numa reunião de trabalho. Muitas vezes é realmente difícil dar início a projetos que exijam atenção, como ler um livro ou um material qualquer que não seja fácil. Então ficam enrolando até o último minuto. Qualquer coisa pode interferir no seu pensamento de maneira a tirar sua atenção: um ruído, uma luz, uma palavra diferente... Uma paciente que estava concluindo sua monografia do mestrado ia para a biblioteca estudar, procurava o local mais quieto, colocava seus plugs (tampões) nos ouvidos- para evitar distrações- e começava suas pesquisas. Ia bem por uns 10 minutos, quando começava então a divagar: “data vênia veio mesmo do latim? Por que o latim é uma língua morta? Foi tão triste a morte da Hebe Camargo...” e por aí vai. Claro que no final do dia ela tinha estudado só a metade do que era esperado.
Para fazermos o diagnóstico de TDAH o paciente tem que apresentar prejuízos em pelo menos dois contextos, por exemplo, na administração de finanças, direção de veículos, capacidade de organizar e manter cuidados com a própria saúde, planejamento de atividades e compromissos, coordenação de grupos, etc. Na prática percebemos que os portadores de TDAH apresentam maior número de divórcios, maiores taxas de desemprego e menor renda média. É comum também a presença de comorbidades, isto é, outro transtorno ocorrendo concomitantemente ao TDAH, como depressão, ansiedade e dependência ao álcool ou drogas. Não é fácil lidar com o sentimento de frustração e de baixa auto-estima à medida que a pessoa vai percebendo os fracassos e os problemas gerados pelo seu comportamento, e essa auto-imagem negativa pode se solidificar ao longo dos anos.
Felizmente temos como minimizar esses sintomas. Existem no Brasil várias medicações seguras para o tratamento, que melhoram a qualidade de vida desses indivíduos ao atuar nos sintomas cardinais do transtorno. A escolha do medicamento vai depender do estilo de vida da pessoa, doenças pré-existentes, dos antecedentes pessoais e familiares, perfil de efeitos colaterais. A psicoterapia também tem uma função importante, ajudando o paciente a se organizar, planejar, gerenciar a distraibilidade e o tão valioso tempo.

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